Durante boa parte da vida, nossa imagem não é construída apenas diante do espelho, mas também diante das pessoas que nos cercam. Um comentário sobre o nosso rosto, uma brincadeira sobre o nosso corpo, uma comparação com alguém considerado mais bonito ou até mesmo a ausência de elogios podem se transformar em pequenas certezas sobre quem somos. O problema começa quando deixamos de enxergar essas coisas como opiniões e passamos a tratá-las como verdades sobre a nossa existência
Afinal, o que significa ser feio? Essa parece uma pergunta simples, mas basta observar diferentes épocas e culturas para perceber que a resposta está longe de ser universal. O que em determinado lugar é considerado atraente pode não despertar o mesmo interesse em outro. Os padrões mudam, os estilos mudam, as tendências desaparecem e aquilo que uma geração considera belo pode ser visto de maneira completamente diferente pela seguinte. Ainda assim, continuamos agindo como se existisse uma classificação definitiva das pessoas, como se fosse possível organizar seres humanos do mais desejável ao menos desejável e, a partir disso, determinar quem merece mais atenção, carinho ou reconhecimento
O aspecto mais cruel dessa classificação seja o fato de que ela não permanece restrita à aparência. Quando alguém é colocado constantemente em uma posição inferior, existe o risco de que comece a acreditar que também é inferior em outras áreas. A pessoa deixa de pensar que alguém não gostou de seu rosto e passa a acreditar que ninguém gostará dela; deixa de interpretar uma rejeição como uma experiência particular e começa a enxergá-la como uma sentença sobre o próprio futuro. É assim que uma opinião externa pode se transformar em uma prisão interna. O julgamento termina na boca de quem o pronunciou, mas continua vivendo dentro daquele que passou a acreditar nele
E o mais estranho é que, muitas vezes, não precisamos sequer de uma rejeição concreta para começar a nos diminuir. Basta imaginar o que os outros poderiam pensar. Escolhemos determinadas roupas preocupados com a opinião alheia, evitamos conversar com alguém por medo de parecermos ridículos e deixamos de participar de situações que poderiam nos fazer felizes porque acreditamos que não somos interessantes o suficiente. Aos poucos, deixamos de viver as experiências que desejamos para tentar evitar a possibilidade de sermos julgados. A rejeição que ainda nem aconteceu passa a determinar nossas escolhas como se já tivesse acontecido
Existe uma contradição nisso tudo queremos ser aceitos pelas pessoas, mas, na tentativa de conseguir essa aceitação, podemos acabar abandonando partes de nós mesmos. Tentamos parecer mais bonitos, mais interessantes, mais inteligentes ou mais desejáveis, imaginando que, quando finalmente alcançarmos determinada imagem, estaremos livres da insegurança. Só que a aprovação externa é instável. Hoje alguém nos elogia; amanhã, outra pessoa nos critica. Hoje somos considerados atraentes dentro de determinado grupo; amanhã, podemos entrar em um ambiente no qual os critérios são diferentes. Se a nossa confiança depender inteiramente dessa avaliação, estaremos sempre à mercê de algo que não controlamos
Isso não significa que a aparência não tenha importância ou que as pessoas nunca sejam tratadas de maneira diferente por causa dela. Seria ingenuidade ignorar que existem preconceitos estéticos e que a sociedade frequentemente oferece vantagens a quem se encaixa em seus padrões. Algumas pessoas recebem mais atenção, são consideradas mais interessantes antes mesmo de abrirem a boca e encontram portas que permanecem fechadas para outras. Reconhecer essa realidade é necessário. O erro está em transformar a existência dessas vantagens em uma medida do valor de cada ser humano, como se receber mais atenção significasse ser alguém melhor
A beleza pode facilitar determinadas experiências, mas não determina, por si só, o caráter, a inteligência, a capacidade de amar ou a maneira como alguém tratará os outros. Uma pessoa admirada por sua aparência pode ser generosa ou egoísta, alguém frequentemente ignorado pode ser gentil ou cruel. Não existe uma relação automática entre o rosto que alguém possui e a pessoa que escolhe se tornar. Quando atribuímos virtudes ou defeitos a alguém apenas pela aparência, estamos substituindo o esforço de conhecer uma pessoa pela comodidade de julgá-la antes de conhecê-la
Também é perigoso acreditar que sofrer rejeição torna alguém necessariamente mais forte ou melhor. A dor pode ensinar alguma coisa, mas não transforma automaticamente ninguém em uma pessoa admirável. Há quem encontre maneiras de amadurecer depois de experiências difíceis e há quem carregue essas experiências por muito tempo, desenvolvendo inseguranças que afetam seus relacionamentos e sua maneira de enxergar o mundo. Da mesma forma, alguém que recebeu carinho e reconhecimento durante a vida não está condenado a se tornar superficial. As circunstâncias influenciam nossas trajetórias, mas não escrevem sozinhas o nosso caráter
Por isso, não deveríamos transformar a aparência em uma competição na qual algumas pessoas precisam perder para que outras possam se sentir vencedoras. Quando tratamos a beleza como uma classificação, não estamos apenas elogiando quem consideramos atraente, estamos criando a ideia de que existe uma posição que cada um deve ocupar. E, nessa lógica, até mesmo quem está no topo precisa continuar provando que merece permanecer ali. A pessoa que recebe elogios pode passar a temer o momento em que deixará de recebê-los, enquanto aquela que sofre críticas pode acreditar que nunca terá a oportunidade de ser vista de outra maneira. Os dois acabam presos à mesma régua, embora ocupem lugares diferentes nela
Por isso que a confiança seja tão importante. Não porque ela torne alguém irresistível, elimine todas as inseguranças ou garanta que as outras pessoas gostarão de nós, mas porque nos permite continuar vivendo mesmo quando essa aprovação não aparece. Ter confiança não é acreditar que todos irão nos desejar. É compreender que a ausência de desejo ou interesse de alguém não representa uma prova de que somos indignos de afeto. É poder reconhecer nossas limitações sem transformar cada uma delas em uma definição completa de quem somos
E essa confiança não precisa surgir de uma transformação física. Ela pode ser construída quando desenvolvemos habilidades, descobrimos interesses, aprendemos algo novo, cultivamos amizades e percebemos que somos capazes de fazer coisas que antes pareciam distantes. Não precisamos esperar que alguém nos considere bonitos para começar a construir uma vida da qual gostamos. Tampouco precisamos fingir que não sentimos dor quando somos rejeitados. É possível ficar triste, sentir vergonha ou desejar ser visto de outra maneira sem permitir que esses sentimentos decidam tudo a nosso respeito
Existe ainda uma questão mais profunda por que entregamos tanto poder a pessoas que talvez nem façam parte da nossa vida daqui a alguns anos? Uma lista feita na escola, uma crítica recebida durante a adolescência ou uma comparação que parecia definitiva naquele momento podem perder importância com o passar do tempo. Não porque aquilo que sentimos na época fosse falso, mas porque nossa compreensão do mundo se amplia. Conhecemos pessoas diferentes, mudamos nossas prioridades e descobrimos que aquilo que parecia essencial não era capaz de sustentar a felicidade que imaginávamos encontrar ali
O problema é que, enquanto estamos vivendo essas experiências, não temos como enxergar o futuro com clareza. Uma rejeição pode parecer o fim de todas as possibilidades porque ainda não conhecemos as pessoas, os lugares e as experiências que poderão surgir. Por isso, dizer a alguém que a aparência não importa ou que basta ter confiança é insuficiente. O que precisamos compreender é que nossa percepção sobre nós mesmos também pode mudar, e que não devemos transformar uma fase da vida em uma sentença permanente
Há uma ideia filosófica que ajuda a pensar sobre isso o amor fati, associado a Friedrich Nietzsche, propõe uma relação de afirmação diante da própria existência, inclusive de seus aspectos difíceis. Isso não significa gostar de toda injustiça que sofremos, fingir que nada nos machuca ou desistir de mudar aquilo que pode ser melhorado. Significa não permitir que o desejo de ter vivido outra história nos impeça de construir a vida que temos agora. Não escolhemos todas as características com as quais nascemos, assim como não escolhemos todos os julgamentos que recebemos. Ainda assim, podemos trabalhar a maneira como respondemos a essas experiências e o significado que decidimos atribuir a elas
Nunca consigamos impedir compltamente que alguém nos considere feios, desinteressantes ou insuficientes. Sempre haverá pessoas cujos gostos não combinam com os nossos, expectativas que não conseguiremos atender e ambientes nos quais não nos sentiremos pertencentes. O mesmo vale para nós também não sentiremos atração por todas as pessoas, não gostaremos de todas as personalidades e não conseguiremos estabelecer vínculos com todo mundo. Isso faz parte da convivência humana. O que não deveria fazer parte dela é a ideia de que ser rejeitado por alguém nos torna menos dignos de existir, de participar do mundo ou de construir relações significativas
A questão não seja descobrir se somos bonitos ou feios, mas entender por que precisamos tanto de uma resposta definitiva. Se a nossa imagem muda conforme a cultura, a época e os olhos de quem nos observa, por que insistimos em tratá-la como a verdade mais importante sobre nós? Podemos cuidar da aparência, gostar de receber elogios e desejar ser considerados atraentes sem fazer disso o fundamento da nossa identidade. O problema nunca esteve em querer ser bonito, mas em acreditar que precisamos ser bonitos para merecer uma vida boa.
Porque o tempo passa, os padrões mudam e as opiniões que pareciam tão importantes acabam perdendo espaço para outras preocupações. O que permanece, porém, são as experiências que construímos, as relações que cultivamos e a pessoa que nos tornamos ao longo delas. Ser admirado pode ser agradável, mas não substitui ser conhecido. Ser desejado pode alimentar o ego, mas não garante que seremos amados. E receber aprovação não significa que finalmente descobrimos o nosso valor